Parada em frente àquelas pessoas sempre tão suadas,sempre tão iguais,por mais que tentassem variar a roupa surrada que usavam,sem lembrar dos furos e dos remendos que essas tinham,sem ter a menor noção que os buracos da sua vida não podem ser preenchidos com linha barata e que,depois que uma estrutura é destruída,é impossível voltar a ser como era antes.Talvez ela fosse a única pessoa,ali naquela estação suja de metrô,que havia descoberto isso e agora estava pagando caro pelas tantas descobertas que havia feito nos últimos dias – ela não imaginava que ver além das pessoas machucava tanto.E então lhe vinha repetidamente a frase que havia visto em algum desses lugares cheios de luzes e ao mesmo tempo completamente obscuros da cidade.Mais que a frase,lhe incomodava lá no fundo a falta de percepção das pessoas.Tão acostumadas,tão iludidas,tão idiotas.Para aquela moça encostada em uma coluna e com uma névoa de tristeza envolta de si,o mundo era um imenso oceano,onde a maioria das pessoas prefere viver na região abissal,que é calma,sem grandes desafios.Ainda que não exista vida nesses lugares,ainda assim,a maioria das pessoas insistem em viver nessa “segurança”.São poucos os que têm coragem de viver na superfície,enfrentar as tempestades,os ventos,as ondas,os desafios.A vida é como as estações de metrô da Avenida Paulista – começa no Paraíso e termina na Consolação.
Talvez um ali até tentasse sair desse torpor.Talvez um viajasse,um fugisse em busca de vida,talvez um se matasse,sendo incapaz de encarar a realidade.O fato é que a maior parte daquelas pessoas suadas e sempre tão iguais só se preocupam em perder peso,em contas,nas balas perdidas – como alguém sem vida tem medo da morte?O fato é que eles no máximo enlouquecem de amor e acabam sempre por desistir,considerando o amor uma loucura grande demais.Mal sabem que o amor não é nada.Assim como eles.