segunda-feira, 16 de junho de 2008
ce n'est pas un trapèze
Naquela tarde nebulosa, com nuvens escondidas por trás dos feixes de arco-íris que seus olhos embriagados teimavem em enxergar, ela chorou tanto que já mal conseguia respirar. Sentiu-se então seca, ainda mais seca, ainda mais suja, pois agora nem mais lágrimas teria para lhe fazer companhia e tentar tirar a sujeira que teimava em lhe sufocar. Não bastava a falta que ele lhe fazia, o pezinho quente pra encostar na noite trovosa, agora também lhe haviam deixado as lágrimas. No alto daquele picadeiro, no meio daquela tarde nebulosa, feixes policromáticos e imagens psicodélicas como uma música dos Beatles passavam por seus olhos e lhe arrastavam pro balanço do trapézio. Seu quadrilátero agora era um jogo de suicídio, um globo da morte, uma piada triste sem sorte. Ele por vezes prometeu que estaria no outro trapézio quando ela se soltasse do seu. Mas ele não estava. Suas lágrimas não estavam. Um barulho ecoou no circo e ninguém riu. Agora ela também não estava. Um corpo que cai. Inerte e solitário corpo. Solitário. Solidão. Sol. Escuridão. Tudo me remete à morte. À morte. A morte.