quinta-feira, 19 de junho de 2008
Linda, comportada, carinhosa e elegante. Aquela mesma mulher,todo dia. E morta de amor e cansaço sem esperanças por aquele homem que não era e jamais viria a ser aquele homem que a faria subir aos céus com um sussuro quente ao ouvido. Não, não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, cegonhas com bebês,ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar. Queria acreditar na mentira dele, na mentira dela, na puta da mentira que é o amor. Até a noite que, de súbito, não coseguiu mais. E jogou copos de uísque na cara dele, ligou bêbada de madrugada durante dias, deixou recados terríveis na secretária eletrônica ameaçando suicídio, assassinato, processo. Que naquele momento ninguém a importunasse, ela queria apenas encontrá-lo e, meio ao acaso, quando ele estivesse passando na primeira calçada, quem sabe acene, quem sabe comece a falar naquela língua que ambos conhecem tão bem e não ouvem faz tempo, contando coisas engraçadas e até mesmo estúpidas, não importa. Num gramado, como uma sina, estranhemente inclinado, criariam uma espécie de pacto mudo, sinuosa cumplicidade. E o ciclo se repetiria. E o amor mais uma vez acabaria. Porque aquele outro também não era o homem dela. Ninguém no mundo poderia preencher seu vazio, ela sabia, mas não desistia. Lá fora o vento bateu forte em sua saia longa, fazendo voar. E pensou em Carmem Miranda. Mas deixou que voasse e voasse. Respirou fundo. Morangos, mangas, monóxido de carbono, polén, flores mortas por toda parte. Saiu andando em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio por onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora daquele quase-julho, daquela quinta, daquele céu cinza, daquela não-dor, afinal.