quarta-feira, 23 de julho de 2008

Me dá um cansaço, aquele cansaço, sabe. Ou um nojo, às vezes me dá. Principalmente quando chove - o barulho da chuva me enlouquece. Me atiro contra a parede e os cacos pálidos se derramam sobre meu granito. E chove sempre. Aqui dentro chove sempre.Ouvi dizer que é só aqui. Eu olho pros outros e vejo uma luz tão bonita, é tudo tão claro. Dentro de mim eu sinto tão escuro, tenho tanto medo. É como se eu sempre esbarrasse sem querer em um vaso egípcio raro e os cacos se espalhassemem uma explosão aguda, levando pra longe aquilo que na verdade nunca nem chegou a existir de fato. E então eu tento colar impaciente, embora sabendo que sempre restarão pequenos espaços vazios, quase invisíveis, mas que formarão uma trama cruel de lacunas indisfarçáveis. E então chove e então a água invade meus espaços abertos, lavando e levando de mim o pouco que ainda me restava. A força da água abre cada vez mais os vincos e dói, dói, dói. De dentro da minha terrível escuridão saem gritos roucos e loucos, mas daí de fora ninguém os ouve. O sorrisinho de porcelana nem se move.