terça-feira, 15 de julho de 2008
É uma pena, mas você não vale a pena - P2
Você não vale um poema. Um verso. A rima imperfeita. Uma letra pra melodia repetida no silêncio. Não vale. Não vale a madrugada perdida, o amanhecer no sofá. A febre, o grito, o vômito, uma foto rasgada, um diário queimado. Não vale. Não vale o corte riscando o pulso ou o punhado de remédios. Nem os discos tristes com solos de sax. A mão por horas sobre o telefone. A espera. O carro no poste. Um soco na parede. O vaso jogado no chão, você não vale. Não vale um espelho trincado, um copo atirado. O gemido atravessando a cidade. O palavrão. Não. Você não vale o tempo perdido, teimosia da busca. Mas eu lhe procuro. Ainda. Eu escrevo versos. Faço poemas. Eu amanheço na febre e acelero contra o muro. Ouço discos riscados, engulo comprimidos em punhados. Você não sabe, não imagina. Mas eu não aprendi. Eu ainda faço tudo por alguém que não vale nada.