sábado, 4 de outubro de 2008

30. 08. 07

Com passos silenciosos, vagueio pela casa observando as quatro paredes sujas da sala.Cheias de marcas de mão e gritos de socorro escritos com batom;berros feitos com a mão.Inúteis, porém. Deveriam ter sido feitos do lado de fora; quem sabe alguém não teria vindoao nosso socorro.Agora, é tarde demais. Nos transformamos nos restos deploráveis do que já fomos um dia.Por muito tempo, encostei o armário pesado atrás da porta para não perceber tudo isso. Fechei com tijolos as janelas e apaguei as luzes para não me enxergar no espelho. Em vão. Eu já estava morta.Ainda tentei te estender o tapee vermelho para que você passasse sem reparar na sujeiraque havia embaixo. Por um tempo, você acreditou na fantasia que eu criava. Até que,inevitavelmente, também caiu na realidade.Agora, somos prisioneiros de tudo isso. Dos anestésicos. Dos analgésicos. Dos antidepressivos. Dos gritos abafados no travesseiro e da infelicidade mórbida que parece rir do nosso desespero.Inutilmente, você tentou fugir. Com uma faca, tentou cortas as redes. Com chaves falsas,tentou abrir as algemas. Munido de ódio, gritou e gritou e gritou a fim de que alguém ouvisse. Inútil.Você deveria saber que eu troquei as fechaduras enquanto você dormia. Revesti as paredescom isolantes para que ninguém te ouvisse, além de mim. Alguns flocos, quase invisíveis, no seu jantar. Acho que você deveria saber que eu acho que você deveria saber um monte de coisas que nãosabe.Você deveria saber que só sai daqui se for pela janela. Pulando, assim como eu.