sexta-feira, 27 de junho de 2008

W.A.

"Acho que me obceco pela morte. É um assunto que gosto. Tenho uma visão pessimista da vida. A vida é dividida em horrível e miserável. Duas caterigorias. Horrível seriam casos terminais, gente cega, inválidos. Não sei como eles vivem. Acho incrível. E miserável é todo o resto. Quando passar pela vida, agradeça por ser miserável. Sorte sua ser miserável."

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Existem noites em que abrimos a janela e temos a impressão de que não há nada nos esperando.
Nem aqui. Nem em outra vida. Em lugar nenhum. Tout est un énorme écart.
Coerência é o fantasma das mentes pequenas. :)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Há dezessete anos de cabeça para baixo, puxada pelo pé, vendo tudo virado. Há tanto tempo virada. Há tanto tempo deixada na mesma posição, sem entender nada. Querendo saber, desde aquele dia, até quando o mundo vai estar assim ao contrário.
Tem uma saia de retalhos coloridos até quase o chão cheio de lixo. Descalça no meio da calçada fria, sozinha e triste triste triste. Nos olhos, um pincel stone traçou enormes asas de sweet butterfly como se seu rosto fosse um jardim. Acompanhado pelos ecos da rua vazia, canta alguma coisa assim: "I'm so happy, I'm so happy 'cause today is the Day 'cause today is a Sunny Day". É muito jovem, mas a sua heroína levou embora o rosa de suas faces. Cheira, calma e lenta, a sândalo, a Oriente. Os retalhos da sua saia e do seu corpo exalam todos os cantos que ela já frequentou, tudo o que já aprendeu, tudo o que já sofreu. Beleza morta incrustrada em uma moça suja.
Se aquela fosse uma rua cheia, se fosse meio-dia de uma Terça-feira, mais um dia no seu trabalho agitado e vazio, você olharia praquela moça suja envolta de lixo e pensaria o quê? Ela pode tocar Pour Élise ao piano e você nem sabe o que é isso. Rimbaud foi para a África, Virginia Woolf jogou-se num rio, Oscar Wilde foi para a prisão, Mick Jagger injetou silicone na boca e Ela acabou na sarjeta. Mas pra quem a vê em uma Terça-feira vazia, é só mais uma perdida, uma mente vazia sedenta por drogas. Why not?


Lanço o meu olhar sobre o mundo e não entendo nada.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Linda, comportada, carinhosa e elegante. Aquela mesma mulher,todo dia. E morta de amor e cansaço sem esperanças por aquele homem que não era e jamais viria a ser aquele homem que a faria subir aos céus com um sussuro quente ao ouvido. Não, não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, cegonhas com bebês,ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar. Queria acreditar na mentira dele, na mentira dela, na puta da mentira que é o amor. Até a noite que, de súbito, não coseguiu mais. E jogou copos de uísque na cara dele, ligou bêbada de madrugada durante dias, deixou recados terríveis na secretária eletrônica ameaçando suicídio, assassinato, processo. Que naquele momento ninguém a importunasse, ela queria apenas encontrá-lo e, meio ao acaso, quando ele estivesse passando na primeira calçada, quem sabe acene, quem sabe comece a falar naquela língua que ambos conhecem tão bem e não ouvem faz tempo, contando coisas engraçadas e até mesmo estúpidas, não importa. Num gramado, como uma sina, estranhemente inclinado, criariam uma espécie de pacto mudo, sinuosa cumplicidade. E o ciclo se repetiria. E o amor mais uma vez acabaria. Porque aquele outro também não era o homem dela. Ninguém no mundo poderia preencher seu vazio, ela sabia, mas não desistia. Lá fora o vento bateu forte em sua saia longa, fazendo voar. E pensou em Carmem Miranda. Mas deixou que voasse e voasse. Respirou fundo. Morangos, mangas, monóxido de carbono, polén, flores mortas por toda parte. Saiu andando em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio por onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora daquele quase-julho, daquela quinta, daquele céu cinza, daquela não-dor, afinal.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

ce n'est pas un trapèze

Naquela tarde nebulosa, com nuvens escondidas por trás dos feixes de arco-íris que seus olhos embriagados teimavem em enxergar, ela chorou tanto que já mal conseguia respirar. Sentiu-se então seca, ainda mais seca, ainda mais suja, pois agora nem mais lágrimas teria para lhe fazer companhia e tentar tirar a sujeira que teimava em lhe sufocar. Não bastava a falta que ele lhe fazia, o pezinho quente pra encostar na noite trovosa, agora também lhe haviam deixado as lágrimas. No alto daquele picadeiro, no meio daquela tarde nebulosa, feixes policromáticos e imagens psicodélicas como uma música dos Beatles passavam por seus olhos e lhe arrastavam pro balanço do trapézio. Seu quadrilátero agora era um jogo de suicídio, um globo da morte, uma piada triste sem sorte. Ele por vezes prometeu que estaria no outro trapézio quando ela se soltasse do seu. Mas ele não estava. Suas lágrimas não estavam. Um barulho ecoou no circo e ninguém riu. Agora ela também não estava. Um corpo que cai. Inerte e solitário corpo. Solitário. Solidão. Sol. Escuridão. Tudo me remete à morte. À morte. A morte.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Eu não estou esperando por esse homem que não é só esse,mas todos e nenhum com uma sede do que nunca bebi sem forma de águas apenas na estreiteza do que aqui e agora eu espero por ele desde que nasci e desde sempre soube que na hora da minha morte misturando memórias e delírios e antevisões um pouco antes a última coisa que perguntarei seria um mas onde está mas onde esteve esse tempo todo que me lanhei sem ti e para me alegrar depois quem sabe talvez enfim desista ou sorria lindo sem dentes sorria luminoso na escuridão da minha boca sorria vasto como nunca foi possível e custa alguma coisa como então você sempre esteve aí uma vida inteira de procuras sem te achar e silêncio para então morrer de morte morrida sem volta de vida gasta marcada de muitas cicatrizes de vida retalhada de muitos cortes mas nunca mortais a ponto de impedir este ridículo até na hora da minha morte amém.

domingo, 1 de junho de 2008

Fico tão cansada às vezes e digo pra mim mesma que está errado,que não é assim,que não é este o tempo,que não é este o lugar,que não é esta a vida. E até penso se não nasci na época ou quem sabe na vida errada. Quem sabe a vida breve de uma borboleta não fosse mais doce e meus dias não fossem assim tão furtivos, tão iguais e repetidos, como uma ciranda sem fim, que me deixa tonta e perdida e sem saber pra onde ir. Então me deixo levar pelas ondas dessa vida sem paixão, mas elas tampouco sabem onde vão, aos poucos descubro que todos são assim perdidos como eu. Não sei se você concorda,mas a vida por si própria já é tão rígida e eu não queria complicá-la mais, mas é que nesses dias nublados eu me sinto tão só e não apenas o céu me parece cinza e ameaçador. Mas então vem você, me embala dentro dos seus braços, me livra dos ruídos de buzinas, versos interrompidos,escapamentos abertos,britadeiras de concreto e,então, me leva pra Creta, Paris, London, e você acalma meu coração repetindo que está tudo bem, tudo bem.


Uma pena você ser apenas um sonho, um sonho, um sonho.
Te confesso que às vezes tenho a nítida impressão que você entrará por essa porta sempre entreaberta e me levará pra bem longe daqui. Não que eu esteja em um lugar ruim, com pessoas ruins, mas são tantas armadilhas e em dias ruidosos como hoje eu tenho muito medo de não saber me defender sem você por perto. Por noites inteiras eu penso no seu rosto, na sua voz, no seu cheiro, mesmo sem nunca ter visto você, mesmo sem nem saber se você existe. Minto. Uma daquelas inexplicáveis certezas que vivem no fundo de algum lugar entre o pulmão e o coração me dizem que você existe sim e que talvez nem esteja assim tão distante de mim. E é por essa certeza, que em dias tristes como hoje me parece não passar de uma humilde pequena-esperança, que eu vivo, que eu trabalho, que eu me esforço pra sorrir dia após dia. Sim, eu sei da roda, sei da ciranda, sei de tudo. Eu sei como o mundo é feio, como ele é cruel. Eu sei que ainda tenho chance de pular fora, de ser mais racional e optar por não aceitar tudo isso. Mas às vezes a idéia me parece tão dolorosa e eu penso se pra você também não é, o que também te impediria de ir contra a roda, o que acabaria nos unindo, será? Uma pena, porém, que também tanta gente receie ir contra a ciranda sem fim que é esse mundo vazio, e por fim tudo continua assim, girando e girando, sempre no mesmo círculo vicioso e doloroso. Então é por você que eu ainda encaro todos esses mistérios, todas essas mentiras, todas as minhas dores. Mas não sei até quando vou conseguir deixar a minha porta entreaberta, seu peso me mata.
Tateio no escuro, espirrando o pó das cortinas, destruindo as teias com a cabeça. Me apoio pelas paredes, ouvindo os ecos dos passos pela casa vazia. Volto pra reabrir os livros, mexer nos rascuhos. Desenterro meus medos em forma de papéis amassados, escondidos no fundo do móvel, no canto do quarto fechado. Tento, então, juntar meu rosto, transformado em cacos.
Faço isso com pá e vassoura, um pouco depois do espelho quebrado, com a imagem dividida ao meio pelo trincar inesperado. Recolhi os pedaços de mim, espalhados pelo tapete, antes de querer me olhar mais uma vez. Antes de não encontrar mais o reflexo. Antes de não me enxergar mais na moldura dourada- sobrevivente pregada na parede do quarto.
Você sabe muito bem que tudo que te digo é mentira. Sem te olhar nos olhos, falo que te quero longe, que, se você não for embora,vou eu. Não fica pensando que é por mal, porque não é. Mas pra cada ação há uma reação. E as minhas reações são sempre de bicho perseguido, acuado, que só sabe se fechar pra se proteger. Nem tente me dizer que quem pára de remar acaba se afogando. Eu sei disso. Eu conheço cada capítulo dessa história. Porque você é pra mim uma reprise. Não tão se graça quanto um Vale a pena ver de novo, mas também não me mostra nada de inédito. Bem que alguém, há muito tempo, disse que a vida é uma eterna repetição.
Que belo estranho dia pra se ter alegria.