terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Embora imperfeito, o mundo em que vivemos não é só miséria e sofrimento. Há rosas sobre os espinhos e lírios acima da lama. Se refletir um pouco, você verá que tem muitas razões para se sentir feliz. Donec eris felix, multos numerabis amicos. Tempora si fuerint nubila, solus eris.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Filosofia do Tédio

"O homem é viciado em significado. Todos nós temos um grande problema: nossas vidas têm de ter alguma espécie de conteúdo. Não suportamos viver sem algum tipo de conteúdo que possamos ver como constituidor de significado. A falta de sentido é entediante. E o tédio pode ser descrito metaforicamente como uma perda de significado. O tédio pode ser compreendido como um desconforto que comunica que a necessidade de significado não está sendo satisfeita. Para eliminar esse desconforto, atacamos os sintomas, em vez de atacar a própria doença, e procuramos todas as espécies de significados substitutos."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A coragem que temos no coração parece medo da morte, mas não era, então.

Termino de escrever e desligo o computador tendo a certeza de que por mais que os escritores escrevam seus lamentos, os pintores transformem em cores suas dores, as costureiras cosam para dentro ou para fora, por mais que toda produção queira atingir a expressão dos sentimentos, o essencial não tem nome nem forma, não pode ser repassado, vivendo solitário dentro de cada um.
Caminho assim de lado, como se passasse por algum lugar apertado, porque tenho uma dor. Carrego seu peso como se portasse medalhas, ou milhares de dólares. Porque uma mulher com uma dor é muito mais elegante, torna-se inconfundível, chama atenção de longe. Não é qualquer um que carrega uma dor assim e continua de peito estufado. Como ela consegue?
Analgésicos, anestésicos ou coisas que o valha, não me toquem, não cheguem perto. A dor é minha, ninguém me tira. Eu, que achava-me impenetrável, me deixei ser invadida por ela, que agora me sustenta e me carrega pelos caminhos aterrorizantes dessa vida. A minha dor foi o que me sobrou de toda a amargura do meu viver sem cura.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Passando a toa por algum lugar desses aí sempre iguais vi um manequim que me fez lembrar muito de uma pessoa: eu. Muito pálida e elegante em seu vestido preto, com nada mais que um filete de pérolas. E distante. Sempre elegante e distante. Você que me conhece um mínimo que seja pensa "q" e concordo com você. Pra todos + 1 eu tenho cara de tudo, menos de manequim sóbrio e distante. Ah, que boa atriz eu sou. Hollywood não sabe a atriz que tá perdendo. Quero um dia poder dizer às pessoas como eu relmente sou. E o por quê de ser assim. A vida sempre foi difícil demais pra mim, nunca me sobrou espaço pra ter angústia, pra ter medos terríveis nem pra ter tempo de chorar por tudo o que eu passei ou por toda a dor que me acompanha desde criança. Quando tudo começou a acontecer, eu nem sabia o que tava acontecendo, nenhuma criança de cinco anos entenderia aquilo, mas eu sentia que tinha dois caminhos. Ou eu me abria pro mundo de cara limpa e mostrava todos os meus (muitos) problemas ou guardava tudo. E crescia.
É, eu sou uma falsa. Ninguém sabe realmente que eu sinto. Ninguém sabe realmente quem eu sou. É impossível você saber quando meu riso é de verdade. Já disse que eu sou uma excelente atriz, modéstia à parte. Você não entende que tudo isso é auto defesa. Eu nunca tive ninguém que pusesse uma rede de proteção embaixo dos meus saltos. Sempre foi na marra. E é assim que vai continuar sendo. É graças a isso que hoje eu sou forte, corajosa e boa. Apesar de toda a amargura, de toda a dor que me envolve, eu ainda acredito nas pessoas. Não em mim, mas nas outras pessoas. Eu não tenho mais jeito. Cabeça de velho não muda mais. Mas você ainda pode ser sincera, pode ser quem você é, todos podem. Não guarde a sua dor pra você. Ao seu lado existem diversas pessoas com paciência e sincera vontade de compartilhar tudo isso com você, até aquelas de quem você não espera nada, tipo eu. Minha querida, ainda vale a pena pedir ajuda, por mais sujo que esse mundo seja. Sempre vai ter alguém que te estenda a mão. É, eu sei que isso soa muito hipócrita partindo de mim, logo de mim. Mas me responde. Você acha que se eu tivesse tido alguma chance de escolher alguma coisa nessa vida eu estaria aqui, assim desse jeito? Você tem a chance, aproveite. Mostre às pessoas que nada foi é em vão, que o amor vale a pena, que ainda vale a pena se doar às pessoas e às amizades. A vida ainda é bela sim. Apesar de tudo.
E sim, eu acredito de coração em tudo isso. Se não acreditasse, não levantaria da cama todos os dias. Tudo o que me persegue já é suficiente pra me convencer a não fazer isso. Acreditar nas pessoas e na vida ainda é o que me mantem viva e o que me dá um pouco de alegria, mesmo diante de tudo que me aconteceu e me acontece. Eu aprendi a lidar com isso, a lidar com quem eu não sou e com quem eu não quero ser.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Pensamentos tão completos

E o tempo passou
E o sol não brilha mais por aqui
E a tempestade também começou
E não tem seu próprio dia
Para ter seu fim...
Parece ser tudo tão triste
Parece que nada existe
Sem você.

domingo, 23 de novembro de 2008

Algumas coisas não parecem no lugar
Está sempre escuro quando eu acordo
E quando eu durmo, já nasceu o sol
E o mundo inteiro já se foi.
Tarde, uma nuvem rósea, lenta e transparente sobre o espaço. Sonhadora e bela surge no infinito a lua docemente, enfeitando a tarde qual meiga donzela que se apressa, linda, sonhadoramente em anseios d'alma para ficar bela. Grita ao céu e a terra toda a natureza, cala a passarada aos seus tristes queixumes e reflete no mar toda a sua riqueza. Suave a luz da lua desperta agora a cruel saudade que ri e chora! Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente sobre o espaço, sonhadora e bela.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

M.B.

Vi uma estrela tão alta
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Instead of kneeling in the sand
Catching teardrops in my hand...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A flor furando o asfalto

De todas as coisas que me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas pertubem meus sentimentos.
É quando entardece que a cidade me engole. Pela manhã, as olheiras vêm à face como cicatriz de cansaço... ou de tempo.
Meu corpo anda dolorido e o vermelho que pulsa aqui dentro ansia calma.
e s t o u l e n t a.
Fortaleza, redemoinhos, asfalto... me desculpem, mas hoje eu quero ser pequena.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Nestas estradas de tantos rostos desconhecidos é sempre bom que deixemos um espaço reservado para a calma. Preconceitos são filhos de nossos olhares apressados. O melhor é ir devagar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Possivelmente porque apenas as pessoas que amamos são realmente capazes de nos infernizar a vida.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

E ainda penso em você, acredita?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pensando em te matar de amor ou de dor eu te espero calada.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Vem dizer adeus ao que restou de quem um dia foi feliz.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Bom dia, tristeza

"Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você
Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar "


(V.M.)

sábado, 4 de outubro de 2008

30. 08. 07

Com passos silenciosos, vagueio pela casa observando as quatro paredes sujas da sala.Cheias de marcas de mão e gritos de socorro escritos com batom;berros feitos com a mão.Inúteis, porém. Deveriam ter sido feitos do lado de fora; quem sabe alguém não teria vindoao nosso socorro.Agora, é tarde demais. Nos transformamos nos restos deploráveis do que já fomos um dia.Por muito tempo, encostei o armário pesado atrás da porta para não perceber tudo isso. Fechei com tijolos as janelas e apaguei as luzes para não me enxergar no espelho. Em vão. Eu já estava morta.Ainda tentei te estender o tapee vermelho para que você passasse sem reparar na sujeiraque havia embaixo. Por um tempo, você acreditou na fantasia que eu criava. Até que,inevitavelmente, também caiu na realidade.Agora, somos prisioneiros de tudo isso. Dos anestésicos. Dos analgésicos. Dos antidepressivos. Dos gritos abafados no travesseiro e da infelicidade mórbida que parece rir do nosso desespero.Inutilmente, você tentou fugir. Com uma faca, tentou cortas as redes. Com chaves falsas,tentou abrir as algemas. Munido de ódio, gritou e gritou e gritou a fim de que alguém ouvisse. Inútil.Você deveria saber que eu troquei as fechaduras enquanto você dormia. Revesti as paredescom isolantes para que ninguém te ouvisse, além de mim. Alguns flocos, quase invisíveis, no seu jantar. Acho que você deveria saber que eu acho que você deveria saber um monte de coisas que nãosabe.Você deveria saber que só sai daqui se for pela janela. Pulando, assim como eu.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Não tem sol, nem solução. Não tem mal, nem maldição. Não tem sereno no meu dia. Não tem sombra e assombração. Não tem disputa por folia. Tem saudade e saudação. Tem uma parte que não tinha..."
E, por experiência própria, eu sei que logo, logo vai voltar a não ter. Já vi o suficiente pra entender que tudo vai embora. O amigo abandona, o marido abandona, o cachorro abandona, às vezes até o diabo te abandona. Não precisei nem de uma infância completa pra descobrir isso. E o amor? O amor abandona todo dia. E dói tanto. Mas acostuma, a tudo se acostuma.
Assim tem sido a nossa vida.

I'M OVER IT


Querido diário,


Estou repleta de pensamentos sombrios, mágoa, tristeza e frustração. Tem um monstro que me devora por dentro levando de mim tudo que eu considerava humano e verdadeiro. Quando aparece algo de sincero na minha vida, só parece. E isso me inclui.
Mas que diferença faz?

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

PFM

"Não desanime de você, ainda que a colheita de hoje não seja muito feliz.Não coloque um ponto final nas suas esperanças. Ainda há muito o que fazer, ainda há muito o que plantar, e o que amar nessa vida.Ao invés de ficar parado no que você fez de errado, olhe para frente, e veja o que ainda pode ser feito...A vida ainda não terminou. E já dizia o poeta 'que os sonhos não envelhecem...'. Vai em frente. Sorriso no rosto e firmeza nas decisões."

domingo, 7 de setembro de 2008

Não sei como comecei a atirar lírios aos anjos

"Me entregaram jornais de meses que eu só queria deixar pra trás.
Me contaram os finais de todos os filmes que eu sonhava assistir."

domingo, 31 de agosto de 2008

Me leve às estrelas.

Não fala mais nada e me deixa viver sem culpa, porque não há nada que se possa fazer agora que, sem âncoras, este navio segue a lei do sol e nada mais vai voltar a ser como em dias que os meus passos não diziam nada e eu caminhava sem saber como ia voltar pra casa antes do dia amanhecer. E, se o vento carregar pra longe o teu olhar, e tocar o céu ser dor maior que perceber que as nuvens de algodão tem marcas de minhas mãos, me leve às estrelas sem pensar que amanhã tudo pode mudar.Me deixa sonhar em paz, porque eu já não penso em acordar.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Você vivia me perguntando o motivo de tudo aquilo, por que diabos eu ainda lutava? O jogo tava perdido, você já tinha jogado a toalha. Mas a tua desistência não fez diferença, sabe. Eu sempre estive sozinha, foi você que nunca percebeu. O tempo todo você só remou contra a maré, achava que o ouro tava daquele lado, mas nem tava. Ali era a sombra, amor. O arco-íris de verdade tava no sentido contrário, você nunca percebeu. Ainda hoje, tanto tempo depois, você continua perseguindo. Eu já te disse, eu sei, você sabe, as outras que vieram depois de mim sabem, todo mundo sabe. Só você não. Acho que no fundo você até sabe, mas quer morrer lutando pelo seu ideal fajuto. E aí eu me pergunto se não é mesmo melhor viver e morrer por uma mentira em que se acredita do que ser levado pela coisa cínica que resolveram chamar de verdade. Segue em frente, amor. Mas vai sozinho. Eu sei que teu barco só tem lugar pra um. A gente passou tanto tempo tentando esticar aqui, apertar ali, mas nunca deu certo, não foi? Doeu tanto esse tempo, mas eu ainda guardo saudades. Se eu pudesse voltar, fazia tudo igualzinho. Mentira, amor. Eu teria pulado fora há mais tempo. Nasci pra isso não. Escuridão pra mim só do lado de dentro. Escondidinha no lado esquerdo. A tua dor é escancarada demais, amor. Sabe, às vezes eu até penso que nem dor é. Dor que é dor a gente protege e guarda escondidinha. No fundo, amor, eu acho que você só quer chamar a atenção remando tão ao contrário assim. Até redigir a linha anterior dessa carta eu ainda acreditava em tudo o que você me disse quando eu aceitei pular nessa contigo. Mas agora eu sei que é mentira, amor. Assim como as promessas, lembra delas? Havia nos teus olhos um quê de que elas nunca seriam cumpridas, mas eu nem reparei. Amor cega, né. Aquelas frases feitas misturadas com noites perfeitas ao pé do ouvido eram embebidas em mentira da mais fina flor, tudo uma maneira covarde de me manter por perto. Bem que me disseram e eu não quis acreditar. Desiste de esperar que eles se juntem pra te fazer desviar a rota, amor. Você não vai acabar nos braços de todos. Você vai morrer precisando de migalhinhas, porque mentira atrai migalha. Se isso aqui chegar até você, por onde quer que você ande navegando agora, amor, perceba que é tudo pra você. E acredita em mim, por favor. Mesmo que não haja mais amor. Sabe, há uma coisinha ainda. Mas não é amor. Acho que é mais uma dorzinha por nunca ter sonhado o mesmo sonho. Se for, saiba que você ficará guardado comigo pra sempre. Do lado esquerdo e debaixo de sete chaves.

sábado, 9 de agosto de 2008

Porque antes eu tinha uma alma mansa, um sorriso pouco, uma esperança diminuta, uns olhos opacos. E então tu apareceste com todas tuas mil cores, teus gestos bonitos, tua paz, teus beijos enlouquecidos, teus lábios ansiosos, tua delicadeza, tuas delícias, tua forma de amar. E o meu planeta começou a ter pinceladas vermelhas e passou a se chamar 'Amor'.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

É duro viver todo dia
Quase todo dia eu vivo de montão
Procuro sempre novos modos de viver
E vivo sempre da mesma maneira
Logo cedo eu ganho um monte de bom dia
O dia é tão comprido
Eu durmo de noitão
Ié, Ié... Ié, Ié, Ié...
Procuro novos modos de não morrer
E morro sempre da mesma maneira
Ié, Ié... Ié, Ié, Ié...
Eu estou vivo
Eu tô vivinho
Eu tô vivão
Tirar umas férias
Que tal tirar umas férias?
Foi só uma maneira de esfriar o cabeção
Mas minha cabeça tem duas partes
Parte A e parte B

terça-feira, 29 de julho de 2008


Eu não entendo de amor, de algum jeito complicado. Dentro de mim, vê se me entende. Isso nunca aconteceu antes, eu não queria ferir você. Te ferir, eu não podia ferir. Seria a última coisa que -eu não devia, eu não pensei. Ah, mas que diferença agora isso faz. Oficializar o já acontecido: perdi um pedaço, tem tempo. E nem morri - veja.

domingo, 27 de julho de 2008

Ooh, see a storm it's threat'ning my very life today. Come'on babe gimme shelter or else, I'm gonna fade away.

If tomorrow never comes

Então diga a quem você ama
O que você pensa dela
Pois o amanhã pode não chegar...

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Me dá um cansaço, aquele cansaço, sabe. Ou um nojo, às vezes me dá. Principalmente quando chove - o barulho da chuva me enlouquece. Me atiro contra a parede e os cacos pálidos se derramam sobre meu granito. E chove sempre. Aqui dentro chove sempre.Ouvi dizer que é só aqui. Eu olho pros outros e vejo uma luz tão bonita, é tudo tão claro. Dentro de mim eu sinto tão escuro, tenho tanto medo. É como se eu sempre esbarrasse sem querer em um vaso egípcio raro e os cacos se espalhassemem uma explosão aguda, levando pra longe aquilo que na verdade nunca nem chegou a existir de fato. E então eu tento colar impaciente, embora sabendo que sempre restarão pequenos espaços vazios, quase invisíveis, mas que formarão uma trama cruel de lacunas indisfarçáveis. E então chove e então a água invade meus espaços abertos, lavando e levando de mim o pouco que ainda me restava. A força da água abre cada vez mais os vincos e dói, dói, dói. De dentro da minha terrível escuridão saem gritos roucos e loucos, mas daí de fora ninguém os ouve. O sorrisinho de porcelana nem se move.

A mancha, o caco, o silêncio soando falso

Abriu os olhos. Absolutamente clara, absolutamente calma, absolutamente só enquanto considerava atenta, observando os canteiros do cimento: será possível plantar lírios aqui? Ou se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Talvez se arrancasse o cimento pálido. E dele fizesse um novo jarro, que junto com os lírios seriam jogados na parede, mirando nele. Mas hoje o dia está tão bonito e isso é tão raro. Absolutamente só não queria ver o pôr-do-sol alaranjado. Se ele vier, pedirei que fique. Serei boa pra ele. Mentira, eu acabarei gritando, descontrolada como cadela no cio. Os cacos de cimento amanhecerão no chão da sala, junto ao rastro de sangue ou de vinho da noite passada.
Mas talvez hoje eu consiga dormir. É indivisível, aprendi. Talvez consiga acordar amanhã finalmente livre de tudo isso. Terei apenas um corpo e poucos pensamentos todos pequenos. Basta pensar que será doce, será doce.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Os ordinários conservam o mundo como ele é.
Os extraordinários movem o mundo para um objetivo.

O que faz uma pessoa extraordinária quando alguém ordinário quer acabar com ela?

quarta-feira, 16 de julho de 2008

De cada amor tu herdarás só o cinismo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

É uma pena, mas você não vale a pena - P2

Você não vale um poema. Um verso. A rima imperfeita. Uma letra pra melodia repetida no silêncio. Não vale. Não vale a madrugada perdida, o amanhecer no sofá. A febre, o grito, o vômito, uma foto rasgada, um diário queimado. Não vale. Não vale o corte riscando o pulso ou o punhado de remédios. Nem os discos tristes com solos de sax. A mão por horas sobre o telefone. A espera. O carro no poste. Um soco na parede. O vaso jogado no chão, você não vale. Não vale um espelho trincado, um copo atirado. O gemido atravessando a cidade. O palavrão. Não. Você não vale o tempo perdido, teimosia da busca. Mas eu lhe procuro. Ainda. Eu escrevo versos. Faço poemas. Eu amanheço na febre e acelero contra o muro. Ouço discos riscados, engulo comprimidos em punhados. Você não sabe, não imagina. Mas eu não aprendi. Eu ainda faço tudo por alguém que não vale nada.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Inspira. Expira. Sístole. Pausa. Diástole. Pausa. Inspira. Expira. Vai, bem fundo e abre os olhos. Olha em volta. Agora sente o cheiro amargo da repetição, tudo igual, tudo igual. O medo idiota que eu e todas e as outras pessoas dessa droga de mundo temos dá até nojo. Permanecendo exatamente iguais enquanto for possível, permanecendo perfeitamente imóveis, nos sentimos bem de alguma forma. E se está sofrendo, pelo menos a dor é familiar. Porque se você agarrar esse salto de fé, indo fora de caixa, fazendo algo inesperado, quem sabe que outra dor poderá estar esperando lá fora? As chances podem ser ainda piores. Então você mantém o atual status, escolhendo a estratégia já conhecida e isso não parece tão ruim, não tanto quanto o defeito pode chegar. Você não é um viciado em drogas, você não está matando ninguém, exceto um pouco de você mesmo, talvez.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

W.A.

"Acho que me obceco pela morte. É um assunto que gosto. Tenho uma visão pessimista da vida. A vida é dividida em horrível e miserável. Duas caterigorias. Horrível seriam casos terminais, gente cega, inválidos. Não sei como eles vivem. Acho incrível. E miserável é todo o resto. Quando passar pela vida, agradeça por ser miserável. Sorte sua ser miserável."

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Existem noites em que abrimos a janela e temos a impressão de que não há nada nos esperando.
Nem aqui. Nem em outra vida. Em lugar nenhum. Tout est un énorme écart.
Coerência é o fantasma das mentes pequenas. :)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Há dezessete anos de cabeça para baixo, puxada pelo pé, vendo tudo virado. Há tanto tempo virada. Há tanto tempo deixada na mesma posição, sem entender nada. Querendo saber, desde aquele dia, até quando o mundo vai estar assim ao contrário.
Tem uma saia de retalhos coloridos até quase o chão cheio de lixo. Descalça no meio da calçada fria, sozinha e triste triste triste. Nos olhos, um pincel stone traçou enormes asas de sweet butterfly como se seu rosto fosse um jardim. Acompanhado pelos ecos da rua vazia, canta alguma coisa assim: "I'm so happy, I'm so happy 'cause today is the Day 'cause today is a Sunny Day". É muito jovem, mas a sua heroína levou embora o rosa de suas faces. Cheira, calma e lenta, a sândalo, a Oriente. Os retalhos da sua saia e do seu corpo exalam todos os cantos que ela já frequentou, tudo o que já aprendeu, tudo o que já sofreu. Beleza morta incrustrada em uma moça suja.
Se aquela fosse uma rua cheia, se fosse meio-dia de uma Terça-feira, mais um dia no seu trabalho agitado e vazio, você olharia praquela moça suja envolta de lixo e pensaria o quê? Ela pode tocar Pour Élise ao piano e você nem sabe o que é isso. Rimbaud foi para a África, Virginia Woolf jogou-se num rio, Oscar Wilde foi para a prisão, Mick Jagger injetou silicone na boca e Ela acabou na sarjeta. Mas pra quem a vê em uma Terça-feira vazia, é só mais uma perdida, uma mente vazia sedenta por drogas. Why not?


Lanço o meu olhar sobre o mundo e não entendo nada.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Linda, comportada, carinhosa e elegante. Aquela mesma mulher,todo dia. E morta de amor e cansaço sem esperanças por aquele homem que não era e jamais viria a ser aquele homem que a faria subir aos céus com um sussuro quente ao ouvido. Não, não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, cegonhas com bebês,ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar. Queria acreditar na mentira dele, na mentira dela, na puta da mentira que é o amor. Até a noite que, de súbito, não coseguiu mais. E jogou copos de uísque na cara dele, ligou bêbada de madrugada durante dias, deixou recados terríveis na secretária eletrônica ameaçando suicídio, assassinato, processo. Que naquele momento ninguém a importunasse, ela queria apenas encontrá-lo e, meio ao acaso, quando ele estivesse passando na primeira calçada, quem sabe acene, quem sabe comece a falar naquela língua que ambos conhecem tão bem e não ouvem faz tempo, contando coisas engraçadas e até mesmo estúpidas, não importa. Num gramado, como uma sina, estranhemente inclinado, criariam uma espécie de pacto mudo, sinuosa cumplicidade. E o ciclo se repetiria. E o amor mais uma vez acabaria. Porque aquele outro também não era o homem dela. Ninguém no mundo poderia preencher seu vazio, ela sabia, mas não desistia. Lá fora o vento bateu forte em sua saia longa, fazendo voar. E pensou em Carmem Miranda. Mas deixou que voasse e voasse. Respirou fundo. Morangos, mangas, monóxido de carbono, polén, flores mortas por toda parte. Saiu andando em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio por onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora daquele quase-julho, daquela quinta, daquele céu cinza, daquela não-dor, afinal.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

ce n'est pas un trapèze

Naquela tarde nebulosa, com nuvens escondidas por trás dos feixes de arco-íris que seus olhos embriagados teimavem em enxergar, ela chorou tanto que já mal conseguia respirar. Sentiu-se então seca, ainda mais seca, ainda mais suja, pois agora nem mais lágrimas teria para lhe fazer companhia e tentar tirar a sujeira que teimava em lhe sufocar. Não bastava a falta que ele lhe fazia, o pezinho quente pra encostar na noite trovosa, agora também lhe haviam deixado as lágrimas. No alto daquele picadeiro, no meio daquela tarde nebulosa, feixes policromáticos e imagens psicodélicas como uma música dos Beatles passavam por seus olhos e lhe arrastavam pro balanço do trapézio. Seu quadrilátero agora era um jogo de suicídio, um globo da morte, uma piada triste sem sorte. Ele por vezes prometeu que estaria no outro trapézio quando ela se soltasse do seu. Mas ele não estava. Suas lágrimas não estavam. Um barulho ecoou no circo e ninguém riu. Agora ela também não estava. Um corpo que cai. Inerte e solitário corpo. Solitário. Solidão. Sol. Escuridão. Tudo me remete à morte. À morte. A morte.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Eu não estou esperando por esse homem que não é só esse,mas todos e nenhum com uma sede do que nunca bebi sem forma de águas apenas na estreiteza do que aqui e agora eu espero por ele desde que nasci e desde sempre soube que na hora da minha morte misturando memórias e delírios e antevisões um pouco antes a última coisa que perguntarei seria um mas onde está mas onde esteve esse tempo todo que me lanhei sem ti e para me alegrar depois quem sabe talvez enfim desista ou sorria lindo sem dentes sorria luminoso na escuridão da minha boca sorria vasto como nunca foi possível e custa alguma coisa como então você sempre esteve aí uma vida inteira de procuras sem te achar e silêncio para então morrer de morte morrida sem volta de vida gasta marcada de muitas cicatrizes de vida retalhada de muitos cortes mas nunca mortais a ponto de impedir este ridículo até na hora da minha morte amém.

domingo, 1 de junho de 2008

Fico tão cansada às vezes e digo pra mim mesma que está errado,que não é assim,que não é este o tempo,que não é este o lugar,que não é esta a vida. E até penso se não nasci na época ou quem sabe na vida errada. Quem sabe a vida breve de uma borboleta não fosse mais doce e meus dias não fossem assim tão furtivos, tão iguais e repetidos, como uma ciranda sem fim, que me deixa tonta e perdida e sem saber pra onde ir. Então me deixo levar pelas ondas dessa vida sem paixão, mas elas tampouco sabem onde vão, aos poucos descubro que todos são assim perdidos como eu. Não sei se você concorda,mas a vida por si própria já é tão rígida e eu não queria complicá-la mais, mas é que nesses dias nublados eu me sinto tão só e não apenas o céu me parece cinza e ameaçador. Mas então vem você, me embala dentro dos seus braços, me livra dos ruídos de buzinas, versos interrompidos,escapamentos abertos,britadeiras de concreto e,então, me leva pra Creta, Paris, London, e você acalma meu coração repetindo que está tudo bem, tudo bem.


Uma pena você ser apenas um sonho, um sonho, um sonho.
Te confesso que às vezes tenho a nítida impressão que você entrará por essa porta sempre entreaberta e me levará pra bem longe daqui. Não que eu esteja em um lugar ruim, com pessoas ruins, mas são tantas armadilhas e em dias ruidosos como hoje eu tenho muito medo de não saber me defender sem você por perto. Por noites inteiras eu penso no seu rosto, na sua voz, no seu cheiro, mesmo sem nunca ter visto você, mesmo sem nem saber se você existe. Minto. Uma daquelas inexplicáveis certezas que vivem no fundo de algum lugar entre o pulmão e o coração me dizem que você existe sim e que talvez nem esteja assim tão distante de mim. E é por essa certeza, que em dias tristes como hoje me parece não passar de uma humilde pequena-esperança, que eu vivo, que eu trabalho, que eu me esforço pra sorrir dia após dia. Sim, eu sei da roda, sei da ciranda, sei de tudo. Eu sei como o mundo é feio, como ele é cruel. Eu sei que ainda tenho chance de pular fora, de ser mais racional e optar por não aceitar tudo isso. Mas às vezes a idéia me parece tão dolorosa e eu penso se pra você também não é, o que também te impediria de ir contra a roda, o que acabaria nos unindo, será? Uma pena, porém, que também tanta gente receie ir contra a ciranda sem fim que é esse mundo vazio, e por fim tudo continua assim, girando e girando, sempre no mesmo círculo vicioso e doloroso. Então é por você que eu ainda encaro todos esses mistérios, todas essas mentiras, todas as minhas dores. Mas não sei até quando vou conseguir deixar a minha porta entreaberta, seu peso me mata.
Tateio no escuro, espirrando o pó das cortinas, destruindo as teias com a cabeça. Me apoio pelas paredes, ouvindo os ecos dos passos pela casa vazia. Volto pra reabrir os livros, mexer nos rascuhos. Desenterro meus medos em forma de papéis amassados, escondidos no fundo do móvel, no canto do quarto fechado. Tento, então, juntar meu rosto, transformado em cacos.
Faço isso com pá e vassoura, um pouco depois do espelho quebrado, com a imagem dividida ao meio pelo trincar inesperado. Recolhi os pedaços de mim, espalhados pelo tapete, antes de querer me olhar mais uma vez. Antes de não encontrar mais o reflexo. Antes de não me enxergar mais na moldura dourada- sobrevivente pregada na parede do quarto.
Você sabe muito bem que tudo que te digo é mentira. Sem te olhar nos olhos, falo que te quero longe, que, se você não for embora,vou eu. Não fica pensando que é por mal, porque não é. Mas pra cada ação há uma reação. E as minhas reações são sempre de bicho perseguido, acuado, que só sabe se fechar pra se proteger. Nem tente me dizer que quem pára de remar acaba se afogando. Eu sei disso. Eu conheço cada capítulo dessa história. Porque você é pra mim uma reprise. Não tão se graça quanto um Vale a pena ver de novo, mas também não me mostra nada de inédito. Bem que alguém, há muito tempo, disse que a vida é uma eterna repetição.
Que belo estranho dia pra se ter alegria.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Teria ditro nutro?Sim,disse nutro e relacionamento e rompimento e afeto,disse também estima e consideração e mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer parar colorir a indiferença quando já não amam mais. Como sobreviver a isso daquele jeito, desamparada e descalça,sem maquiagem nem anjo da guarda,sozinha em casa e no planeta Terra?
Uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz, sem saber por que, começou a chorar, sentindo-se só e pobre e feia e confusa e abandonada e bêbada e triste, triste, triste. Te parece dócil, assim sinuosa, aparentemente evitando choques que possam machucá-la? Pois a mim parece falsa, conheço bem suas tramas e sei de todas as vezes que concedeu para que o de fora não a ferisse. Olha, ouve e repara: essas sinuosidades são de cobra, não de ave.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Subo, desço, crio frases sem nexo de desespero e as jogo pelo ar. Amaldiçoo, praguejo, já tenho a voz rouca de tanto reclamar.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

(Este é literalmente um texto de auto-ajuda - estou tentando ajudar a mim mesma. Se servir pra mais alguém, ótimo. Mas não tenho a pretensão de ser dona da verdade de ninguém… Só da minha. E olhe lá.)

Problema é diferente de crise. O problema é um escorregão. A crise é um acidente grave de carro. O problema é perder 10 reais na rua. A crise é ter dívidas enormes com o banco e com o cartão de crédito. O problema é ter uma dor de cabeça. A crise é ter um tumor cerebral. O problema é discutir com o namorado por causa de um atraso. A crise é descobrir que não ama mais o marido. O problema é ficar de saco cheio do chefe de vez em quando. A crise é trabalhar sob constante estresse.
O problema é ter que passar o rodo no quintal depois da chuva. A crise é ver o barco enchendo de água durante a tempestade. Com o problema, você lida. Com a crise, você fica quase impotente. Quase.
Claro, tem gente que adora transformar problemas em crise. E gente também que enfrenta grandes crises tratando-as como pequenos problemas. Mas ninguém está livre nem de um, nem de outro. Uma hora, você vai topar com um dos dois, ou o que é pior - com os dois ao mesmo tempo.
Sobre os problemas, normalmente, não há com o que se preocupar. Eles vão passar, rápido. Para eles, vale aquelas máximas que as pessoas vivem dizendo. Por exemplo, que nenhum problema será relevante depois de um ano ( a maioria, nem depois de um mês ). E também que, se um problema tem solução, não é necessário se preocupar com ele, porque tem solução. E se não tem solução, idem.
Agora, a crise é diferente. Passar por ela é só para os fortes. Ela vai chegando de mansinho, tomando espaços vazios da sua vida, se instalando . Só que, de repente, vira um monstro terrível, pronto pra engolir você. Um nevoeiro que cega, não deixa você ver nenhum horizonte.
Os problemas nos desestabilizam, nos lembram que, como disse Victor Hugo, o riso constante é insano. Agora, as crises… Elas não. Elas vêm pra mudar a nossa vida. E mudam. Pra melhor ou pra pior.
E no meio da cegueira que a crise provoca, a gente precisa aprender a olhar.
Olhar para baixo, pois sempre haverá alguém que passa por uma crise pior do que a nossa… E nobreza mesmo é estender a mão para o outro quando queremos ser carregados no colo.
Olhar para cima, pois sempre há o apoio divino que pode resolver aquilo que ninguém mais pode.
Olhar para o lado, pois as pessoas sempre têm coisas importantes para nos ensinar e podem mostrar o que não conseguimos ver, seja por suas palavras, seja por seus exemplos.
Olhar para dentro, pois lá está a razão e a solução de tudo.
Olhar para fora, pois mesmo em crise, precisamos salvar o tempo do descanso, do sorriso e da beleza que está no mundo.
Olhar para trás, pois o nosso passado pode nos lembrar quem somos e qual é a nossa trajetória de crescimento.
Olhar para frente, pois como os problemas, um dia as crises passarão - mesmo que demore um pouco mais.
Acredito piamente que as crises sempre têm algo a ensinar, algo que só aprenderíamos passando por elas, e embora algumas sejam imprevisíveis… Nossa escolha conta muito. Um crise financeira pode nos ensinar a lidar de maneira mais consciente e generosa com o dinheiro, ou pode nos empobrecer e levar tudo que construímos. Uma crise de saúde pode nos ajudar a valorizar mais a vida, ou pode nos deprimir até beijarmos a morte. Uma crise na família pode nos lembrar da importância de ter alguém por perto, ou pode nos afastar das pessoas. Uma crise no amor pode nos fazer mais maduros, ou pode nos devolver à solidão. Uma crise no trabalho pode nos apontar novos caminhos de realização pessoal e profissional, ou pode nos deixar frustrados e infelizes. Uma crise existencial pode nos responder perguntas que sequer faríamos antes, ou pode nos calar. Não é fácil passar por uma crise. Mas pode ser bom. O sofrimento será proporcional a dureza da nossa cabeça - quanto mais flexíveis e abertos formos, mais rápido ela passa, e menos dor causa.
Meu avô dizia, quando eu não queria fazer lição de casa - “se tem que ser feito, faça logo; o tempo de brincar e ser feliz é muito mais precioso, e não pode ser perdido.”. No fim, a crise é mesmo uma questão de atitude. Com ela, aprendemos a olhar para muitos lados… Contanto que não fiquemos com os olhos presos nela.
“Mas, tão certo quanto o erro de ser barco a motor
E insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque
Não o vemos..."

quarta-feira, 14 de maio de 2008

E veio a mim quando todo plano era um relance de um tempo distante. Eu olhei pros meus pés na UTI que cheirava a mijo e 409. Eu controlei minha respiração e disse pra mim mesma que já tinha suportado demais por hoje. Enquanto os batimentos enfraqueciam no LCD e te levavam um pouco mais longe de mim... Entre as máquinas de venda e as revistas do ano passado. Num lugar onde só dizemos adeus. Por causa de um deslize violento, agora as memórias dependem de uma câmera defeituosa em nossas mentes. E eu sei que você era verdade, e que você prefiria ser amada do que ser eterna.

por que você se foi assim?

Quando partiu, levava nos olhos um ar cansado, como se a vida já tivesse lhe sugado tudo e, por mais que ninguém de fora percebesse, suas mãos agora quietas mostravam que até sua alma já havia desistido de lutar. Mas tinha a cabeça erguida. Estava deitada em uma cama descolor, mas eu sabia que, se tivesse firmeza e forças, estaria de pé, altiva como sempre foi, e partiria sem sequer olhar pra trás. Porque olhar pra trás era uma maneira de ficar um pedaço qualquer e, assim, partir incompleta. Não olhava, pois, e pois não ficava. Completa, partiu. Podia ter ficado mais tempo, não sei, dizem que é o dia a hora o momento céu deus. O que eu sei é que a gente só deseja que fique pra sempre. O que eu sei é que ela foi, mas a dor ficou. Já li tudo, já tentei macrobiótica, psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação astrologia patins candomblé ecologia, e me sobrou só esse nó no peito e agora eu faço o quê?

segunda-feira, 10 de março de 2008

O que virá depois?- pergunto então para a tarde suja atrás dos vidros e me sinto reconfortada como se houvesse qualquer coisa feito um futuro a minha espera.Mas algo muito forte me diz que não haverá futuro algum se eu não der ordem a bagunça que me segue aonde vou,a confusão mórbida em que se encontra a minha mente.Você me entende?Claro que não entende.Eu não estou sendo suficientemente clara,o que me leva a perceber que,além da certeza de que você nunca me entenderá,eu tenho a certeza de que nunca darei ordem a nada disso.Portanto,não haverá sentido,não haverá depois.Antes que tudo fique ainda mais complicado, eu queria parar tudo.E encontrar uma forma de colocar a minha sujeira embaixo do tapete.Fazer de conta que comecei agora,neste segundo e minha primeira frase é a que digo agora: é um terrível esforço para mim.Se permanecer aqui,parada nesse encontro de paredes,de fronte a essa janela,sinto que algo muito grave me acontecerá.E quando digo grave é grave mesmo,tipo morte ou loucura.Escritas assim parecem tão leves e doces.Preciso de algo que me tire dessas paredes,dessas pichações,dos meus pedidos insanos de socorro e desses pombos que mais parecem morcegos.Preciso de algo que me prove que há um depois,mesmo com um antes tão sujo.Eu quero um sentido pra vida.Querer um sentido me leva a querer um depois,os dois veem juntos,se é que você me entende.

domingo, 9 de março de 2008

Existirá algo além dessa ciranda sem fim que é essa vida- passo a me perguntar isso aqui,sentada no encontro das paredes,olhos fixos na janela.Pombos pousam perto e você logo pode imaginar uma cena poética,mas aqui é tudo tão frio e negro.Mais me parecem morcegos,os pombos.Prefiro não vê-los e por isso viro a cabeça em direção a parede descascada - o que minhas unhas fizeram?Aqui tantas pichações com pedidos insanos de socorro,talvez se tivessem sido feitos do lado de fora,de forma que alguém pudesse vê-los,eu não estivesse tão em cacos, tão transformada em dor.Essa compreensão sangrada das coisas me corta,me lacera e me leva a loucura.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Eu nem sei por que me sinto assim
vem de repente um anjo triste perto de mim.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Nem os poemas de vanguarda continuam a acrescentar algo novo ao que quer que seja. Destruiram até a sinceridade que as palavras,não ditas,mas escritas, poderiam ter. Acabou a esperança. A esperança de um mundo melhor, de uma gente mais digna. Olha com que cara eu escrevo isso aqui. Com a estampa do conformismo nos olhos, com a certeza de que tudo está perdido. Sem luzes no fim dos túneis pichados. Olha bem pra mim e diz se você quer viver em um mundo assim, se você quer ser como quem está ao seu redor. Quem destrói sonhos sem o menor pudor. Não estou falando dos assassinos monstruosos que aparecem na tevê. Estou falando do seu amigo, do seu melhor amigo, por exemplo. Sabia que mais cedo ou mais tarde você vai acabar descobrindo que ele, sim, até ele, é um filhodaputa? E sabe o que você vai fazer? Nada. Você não vai fazer nada porque não dá pra fazer mais nada. Tá tudo perdido, acabou. Sai e procura as pessoas menos filhasdaputa que você encontrar pelo caminho. Mesmo sabendo que quem é pouco filhadaputa hoje pode se tornar o filhadaputa-mor amanhã. Basta um interessezinho, uma chance de te passar a perna. E ele mostra a cara. E você?Já mostrou a sua hoje? Ou ainda tá tentando ser o bom moço ou quem sabe a donzela sem pecados?Desiste,boy. Joga o jogo deles que é melhor. Joga antes que seja tarde e você não se encaixe mais. Joga antes que a roda gire bem rapidão e você não consiga mais alcançar. Porque, se isso acontece, aí sim você vai ver o quanto dói ficar sozinho. É, boy, no mundo em que a gente vive, neguinho não pode se dar ao luxo de tentar ser fiel não. Gente boa? Nem pensar. Enfia uns disfarces na mochila e sai logo atrás do que é teu. E vê se esquece de uma vez de querer o que você quer de verdade. Porque nesse mundo que a gente vive, você tem que querer o que eles querem que você queira. E tenta ir contra o relógio. Tenta subir a escada rolante que desce. Você acaba descendo pro inferno e ainda chega todo suado.
E isso aqui já não tem nenhuma graça. Essa ciranda sem fim, que gira, gira, mas não acaba nunca. Muda o cenário, mas seus personagens são sempre iguais. Gente suja, gente imunda, gente vazia. Que não sabe o que quer, e assim vai destruindo sem pudores o que vê pela frente. Está cheio delas. Estão em toda parte. Estão em todos, até em quem tenta,tenta não ser assim. Mas quem não tem essa coisa na alma não sobrevive, não passa pela seleção natural que o mundo impõe. Não venha dar uma de bonzinho, porque pra sobreviver todo mundo tem que ser curel. Tem uns que disfarçam mais que os outros, só isso. Mas no frigir dos ovos são todos iguais. Somos todos iguais. Um bando de hipócritas acreditando na mentira que nos vendem.The ceremony is about to begin. E nada muda. Eu não acredito mais no otimismo dos humanistas, nas promessas dos políticos, no heroísmo dos heróis. Essa sujeira toda não sai, não vai embora de jeito nenhum. Tá incrustada. Já faz parte de todos. A roda não gira mais sem ela. O que resta em uns ou outros perdidos, parcialmente fora do encaixe, é a eterna sensação de mau-estar, a coisinha que sussurra lá no fundo: "você vai se dar mal...". And turning inside out.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

La Maison Dieu

Se dez batalhões viessem à minha rua
E vinte mil soldados batessem à minha porta
À sua procura
Eu não diria nada
Porque lhe dei minha palavra.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

pequenas metades

Parada em frente àquelas pessoas sempre tão suadas,sempre tão iguais,por mais que tentassem variar a roupa surrada que usavam,sem lembrar dos furos e dos remendos que essas tinham,sem ter a menor noção que os buracos da sua vida não podem ser preenchidos com linha barata e que,depois que uma estrutura é destruída,é impossível voltar a ser como era antes.Talvez ela fosse a única pessoa,ali naquela estação suja de metrô,que havia descoberto isso e agora estava pagando caro pelas tantas descobertas que havia feito nos últimos dias – ela não imaginava que ver além das pessoas machucava tanto.E então lhe vinha repetidamente a frase que havia visto em algum desses lugares cheios de luzes e ao mesmo tempo completamente obscuros da cidade.Mais que a frase,lhe incomodava lá no fundo a falta de percepção das pessoas.Tão acostumadas,tão iludidas,tão idiotas.Para aquela moça encostada em uma coluna e com uma névoa de tristeza envolta de si,o mundo era um imenso oceano,onde a maioria das pessoas prefere viver na região abissal,que é calma,sem grandes desafios.Ainda que não exista vida nesses lugares,ainda assim,a maioria das pessoas insistem em viver nessa “segurança”.São poucos os que têm coragem de viver na superfície,enfrentar as tempestades,os ventos,as ondas,os desafios.A vida é como as estações de metrô da Avenida Paulista – começa no Paraíso e termina na Consolação.
Talvez um ali até tentasse sair desse torpor.Talvez um viajasse,um fugisse em busca de vida,talvez um se matasse,sendo incapaz de encarar a realidade.O fato é que a maior parte daquelas pessoas suadas e sempre tão iguais só se preocupam em perder peso,em contas,nas balas perdidas – como alguém sem vida tem medo da morte?O fato é que eles no máximo enlouquecem de amor e acabam sempre por desistir,considerando o amor uma loucura grande demais.Mal sabem que o amor não é nada.Assim como eles.